segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Complicado KISS




Era tudo tão mais fácil se o fosse mais simples.

Tenho perfeita noção que tenho especial apetência (ou competência) para complicar. Mas, afinal , quem não o é ou não o faz? Acabo de em deparar com um problema semântico…isto de complicar está no âmbito do ser ou no do fazer? Acho que está entre o empírico e o adquirido, oxalá alguém me explique, me elucide, me esclareça (lá está, compliquei com os quase sinónimos).

São frequentes os momentos em que me apercebo que as coisas são, afinal, mais simples do que me pareciam, mas também não são raros os momentos em que perante uma complicação algo me parece óbvio e claro. Porque não equacionar todos os cenários possíveis perante uma situação? Onde está a fronteira entre a precaução e o excesso de zelo que impede de avançar? Até onde se pode complicar para defender uma ideia ou, então, para a contrariar, desarmar e destruir?

Bem, estou a complicar o assunto…mas, se o assunto era a complicação não era suposto simplificar, certo?

Outra ocasião propícia “ao complicamento” é quando nos debruçamos sobre um dos nossos problemas, porque esses são realmente complexos…já diziam os outros que “a vida dos outros é tão simples para mim”.

Teoricamente deverá aplicar-se à vida o princípio KISS. Mononucleoses à parte, o KISS é a sigla, ou acrónimo (diferença?) de Keep it Short and Simple que, segundo a wikipédia, tem a sua origem em Albert Einstein ("tudo deve ser feito da forma mais simples possível, mas não mais simples que isso") e Antoine de Saint-Exupéry ("A perfeição é alcançada não quando não há mais nada para adicionar, mas quando não há mais nada que se possa retirar").

Há também outras correntes de opinião (ou de autor) que dizem que o tal KISS pode ser Keep it Simple, Stupid, Keep it Simple, Silly ou ainda Keep It Sweet & Simple, mas essas correntes levar-me-iam para outro porto.

Resumindo, há que reduzir o pensamento e o discurso (ou essencialmente o discurso) ao essencial, guardar o que se deve escusar à partilha (porque nem tudo a socialização obriga)…precavemos o desgaste do nosso latim, prevenimos anomalias de audição dos nossos interlocutores e evitamos que algo se não entenda. Confuso? Talvez…

Termino com duas músicas, uma mais provável, outra mais no sentido da não complicação. 



segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Outonices




Hoje, em pleno e quase embriagado ambiente social natalício, parece-me injusta a pouca atenção dada às tardes de outono. Sei bem que as temperaturas dos últimos dias e que o típico mês de Dezembro cheira a Inverno, mas começa ares outonais!

Eu prefiro o Inverno e o Verão aos seus congéneres: talvez efeitos, defeitos e feitios  associados a um alérgico que nunca se separa do seu pacote de lenços de papel. Factores olfactivos à parte, a componente estética das paleta de cores das árvores tem o seu encanto. 

Estas estações de “meias tintas” (outono e primavera) não são “nem carne nem peixe”, mas como que nos preparam para o que há-de vir. Se no caso da primavera nos avisa que está para chegar o inferno “atmosférico” do verão, já o outono lembra que o ano está a terminar (faça-se o seu balanço) e vamo-nos preparar para o novo ano que vem, bem conservado em ambiente fresco, segundo a sabedoria popular, “bom para curtir as carnes”.

Não consigo pensar em outono sem me lembrar “das belas tardes outonais” do Mingos do Rui Veloso…bons tempos a ouvir o álbum em cassete (agora revividos com o CD):

Nesse verão de são martinho/De belas tardes outonais/Tocámos pela última vez/Foi o fim dos samurais

Tudo bem, eu sei que o fim é trágico, com o fim dos samurais, mas o importante, que neste caso justificou a publicação, são as tardes outonais!

Termino com um poema (fantástico) que me deu que pensar…e o outono é propício para essa predisposição cogitativa e uma música convidativa:

Motivo (Cecília Meireles) 

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.