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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Um dia






Um dia destes, não é um destes dias. Pode parecer a mesma coisa, mas não o é de facto. A essência é outra. É mesmo! Completamente outra, bem mais do que há dias assim.


A cabeça está cheia, as ideias saltam de hemisfério em hemisfério, umas empurram as outras para baixo… e não são necessariamente as mais fracas que ficam por baixo, talvez sejam as mais certas porque ficam presas entre os vértices das mais irregulares, mas se assim for não consigo explicar porque é que as ideias mais densas ficam à superfície…


Nestes dias há um bem precioso que tenta resistir como pode numa panela esquecida ao lume, a água ferve, borbulha, evapora e não resiste ao esquecimento térmico, desidrata e fica como que em pó, um “derivado de”, digamos que existe (ou subsiste) um sucedâneo de paciência.


O ar teima em entrar nos pulmões…teimar pode não ser bem o termo mais adequado, porque por vezes o ar é empurrado com a força de um suspiro, sim do suspiro. A respiração também se pode assemelhar ao movimento das ondas no mar: aquele momento em que a expiração é mais sonora e prolongada equivale ao rebentar da onda que em simultâneo origina uma onda nova, por vezes no sentido contrário. Lembro-me agora de comparar aquele instante em que a onda atinge o seu ponto máximo com o intervalo entre a inspiração e a expiração (mais exuberante e quiçá asfixiante quando balançada ao pela métrica do suspiro).


O texto hoje vai volátil, não adianta. Bem tento explicar-me, bem tento compreender-me…acho que me vou ficar entre o “não adianta” e o “não concordo”. Não sei bem com o quê, com quem…nem sei bem o porquê destas reticências - talvez até saiba, mas para quê escrever? Bem vistas as coisas: pensar, ter paciência ou respirar podem fazer todo ou nenhum sentido. Junto ou separado, proporcionalmente ou inversamente proporcional.


O gongo toca. É chegado o momento do cursor deixar de piscar, de existir e deixar de o ser, o texto não vai lá das canetas e o fundo branco não é papel, é redundantemente um “volátil software”…




domingo, 5 de janeiro de 2014

Cereja em diante




Que a vida é feita de pequenos nadas, já todos o sabemos ou vamos sabendo. Um nada aqui, um nada ali…e afinal não se passa nada e assim se nada rumo ao mar do futuro.

Ano novo, mas a vida nova esfuma-se, esbate-se e refunde-se decalcado com o passado num presente palmilhado a tacto, lento, “(ob)escuro”, desnorteado, órfão de zéfiro orientador.

No começo de cada ano há a tradição das uvas passas, em alguns casos corintos…este ano vi até a versão goma de urso. É uma tradição matemática em número de mensais desejos. Porque o tempo é escasso, ou o é o apetite para consumo vinícola desidratado, resume-se o conto da conta a trimestres, estações do ano (?) ou a uma tríade seca de bagas. Aqui deixo a minha sugestão de tal ser feito com cerejas: são como as conversas, são normalmente aos pares, mantém-se a filosofia do fruto vermelho e, suponho eu, haverá menos lugar a adaptações futuras.

Coincidência ou não, e cada vez acho menos que as músicas são coincidências nos meus ouvidos ou memória, ocorre-me uma que me parece assentar neste molde que é o início do ano que diz que a verdade é coisa enganosa e que a vida é um doido brinquedo.

Não sei se pretendo interpretar que se deva brincar com a vida, mas antes que é a vida é um brinquedo desmontado em que se vão juntando as peças…a parte do doido pode ser do dono do brinquedo, da forma como se juntam as peças ou do resultado. Enfim, a parte doida pode também estar nesta componente meditativa, ou na demanda deste saber.

Nem sempre tudo é claro (para mim são escassas as vezes), nem mesmo se nos fosse dado o poder (?) de escrever nas linhas definitivas, ver o filme todo de rajada com os olhos postos no desfecho…acho mesmo aí nos iríamos queixar do happy end… a vida é mesmo emaranhada!




(Caríssimas canções - Sérgio Godinho com Manuela Azevedo, Nuno Rafael e Hélder Gonçalves)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Música, music, musique...



Não é fácil definir o que é a música e igualmente difícil me é dizer o que a música é para mim.

Quando as palavras não brotam, quando a boca está desidratada e o dicionário mental de sinónimos bloqueia e se desnorteia, há que recorrer a quem tem o dom de fazer das palavras música. 

Cale-se o meu papaguear de caracteres para que se ouça (e leia) o que de mais belo e completo escreveram sobre o assunto - quer se goste do autor ou não (quiçá se passe a admirar ainda mais o seu talento):






Mão na música

A música é tamanha, cabe em qualquer medida...
Na sua mão sobe o ar ao infinito, de lá treme.
A música por um lado vê-se, por outro não se vê.
Nada da música se improvisa por acaso.
A música corre nas gargantas e pode ser tocada com um só dedo.
A música mostra-se feia para os seus pares e bela para os seus ímpares.
A música emudece por vezes os cantores e deixa-os a sós nos camarins à esper...
a do amigo do carrasco.
A música não é a mesma quando ouvida de longe ou quando ouvida de perto.
A música não tem explicações a dar a si mesma. Isso explica tudo.
A música dá asas a quem voa, a quem tem asas para voar.
A música faz aos poemas aquilo que os poemas quiseram fazer dela: render-se. E aos outros propõem; rendam-se. Tréguas e batalhas sem ordem de aviso.

A musica referenda a liberdade? Sim ou não?
A música depende de um botão da liberdade e desunha-se a mostrar os efeitos de num dedo a voz humana.
A musica faz orelha moucas.
A música não se esquece no silêncio, por isso nos lembramos dela. Permanece em mais que um som.
A música vai por vezes mais alto e de uma torre afunda o eco no centro da terra.
A música aguenta-se de pé, dorme sentada, dança e escorrega na cama.
A música pausa e pausa, faz das malas a viagem mas se acena, já de longe, a música atira os seus poemas ao mar e recebe-os nas ondas do dia seguinte, nas garrafas outro povo.
A música perdeu muitos bons poemas no vento contrário, quem sabe era bons.
A música é uma cópia de uma cópia, cara aberta vai ao fundo e vem à tona por respiração.
A música é uma revolução de estilos, é do passarinho herdeira orfã.
A música é orfã.
Quando nasceu os seus pais tinham morrido há pouco. É orfã.

A música esfrega os dedos em tudo o que der som.

A música nunca teve em si mesma uma moral, pensa que não pensa e que não perdura.
Diz-se que faz muito bem ouvi-la alguém que pense e que perdure por ela.
A música não tem barreiras mas o amor por ela, sim.
A música prepara-se, destroçada, mas vaidosa para confessar tudo ao cair do sol.
A música chora e ri ao mesmo tempo, uma criança por razões não exactamente compreensíveis.
A música quer ser perfeita, sempre que por escolha é imperfeita. Por talento dá-se a todas a bondade, a presunção, ressentimento e mais não fosse a quatro tempos.
A música de repente é a mesma nota repetida e outras vezes. A música mede-se com caneta e gravador. É maior e é menor.
A música quando se encontra já lá está.
A música nasceu antes de nós termos nascido com ela.
A música segue a sua sombra e pela sombra é fácil, não há espelho. Ou é ritmo ou é pausa. Ambos dúbios mas reconhecíveis.

A música é feita à janela e aberta vê-se da rua.
A música eriça-se ao menor vento, arranha-se a si mesma, ladra ao ar, risca a terra. Gosta mesmo.
A música quando a chuva cai com barulho de entre as nuvens vê-se o mar em dia de acalmia o que não é explicável nem por norma nem por excepção dos deuses. Digamos que são os sons em dia de ofertório.
A música vai de rio e desagua. Aquece a água doce, rebenta no mar salgado, larga os seus bichos no mar.
A música tem duas mãos, é tocada com um só peito, um só dedo. Da música sobe o ar ao infinito. A música tem um só dedo e um só dedo.
A música tem um só dedo e um só dedo.
Nada da música se improvisa por acaso.


 (Sérgio Godinho)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Pode alguém ser quem não é?



Pode alguém ser quem não é?

Creio que não se pode tropeçar na (sur)realidade durante muito tempo, nem fintar o futuro, fazendo do presente uma farsa sob a forma de disfarce do passado.

Sou o que sou, sou só o que sou, sou apenas sendo o sou (e acho não ser pouco). Perante um presente constantemente descalço, reavivam-se nós de saudade que, miscigenados com a visão de turvo futuro podem fazer-nos descolar o ser que somos, mas daí a sermos o que não somos tem que ir uma larga distância…apesar de não faltarem exemplos de fachadas de edifícios ocos.

As trapaças da vida são constantes, os empecilhos assumem a filosofia boomerang e a vida segue… Concordo que momentos vãos exigem que o “eu” seja camuflado, mas até que ponto? Ok, entendo e subscrevo a importância das circunstâncias, mas aqui o “velho” cansaço traz o efeito do azeite em solução aquosa, isto é, o que somos emerge e, para o bem ou para o mal, salva-se, revela-se. Não implica necessariamente a nódoa no pano “melhor”, mas o sentir pousar os pés no chão ao som do desabafo: Afinal…

Têm prioridade as verdades nuas e cruas, ou deve dar-se prioridade às versões carnavalescas e ao som das modas? Até aqui se recomenda uma utilização moderada sem riscos para a saúde? Tudo é veneno, nada é veneno…a diferença está na dose?

Bem, se há texto confuso neste blog, este “está lá”. Termino com duas músicas e o excerto de uma delas cujo título está plagiado no título deste post:

Seja um bom agoiro
ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão




 

domingo, 19 de outubro de 2008

(in) Definições



Uma dificuldade com que, certamente, muita gente se depara são as palavras e/ou expressões que nada dizem. Ou seja, algo do género “ nem mais nem menos, antes pelo contrário e vice-versa” deixa qualquer um, quanto mais não seja, “mentalmente boquiaberto”.

Hoje, irei “debruçar-me” sobre a palavra “coisa” e as suas variantes… sendo que a variante masculina “coiso” é muito sui generis, pelo que não irei por esse caminho.
Afinal de contas, o que são coisas? O que é uma coisa? Todos sabemos que há coisas que acontecem, há coisas que era suposto acontecerem e há coisas que não há coisa alguma que as explique. Mais coisa, menos coisa, acabamos por ficar na mesma e não saímos do síndrome (culinário) de “pescadinha de rabo na boca” em que não se chega a lado algum.

Já houve mais alguém que se tentou debruçar sobre esta problemática, pelo que vou fazer dele as minhas palavras:

As coisas têm peso
Massa, volume, tamanho
Tempo, forma, cor
Posição, textura, duração
Densidade, cheiro, valor
Consistência, profundidade
Contorno, temperatura
Função, aparência, preço
Destino, idade, sentido

As coisas não têm paz


Espero, desta forma ter contribuído para esclarecer algumas das dúvidas que vos sirvam e consegui fazer, talvez, do Espaço Amplo um “mini” instrumento de trabalho.

(foto: www.olhares.com)